ATÉ À VISTA BIXO MAU (ou) UMA HISTÓRIA DE NINGUÉM
Esta história não é de aqui nem de agora. À força de lhe querermos traçar uma espécie de origem, podemos no entanto tentar situá-la num triângulo das bermudas cujos vértices coincidiriam com a Colmeia BBS (precoce incursão no mundo das redes), o café Guanabara e os fumarentos concertos dos Mondo Generator.
Anos mais tarde, voltamos a encontrá-la algures entre a galeria-favela Ascensor, um recém-nascido Caldas Late Night e a revista Duas Letras - panfleto contestatário por excelência. Como um espelho quebrado a anunciar vindouros anos de aventuras, esta história desmultiplica-se então numa miríade de acções e lugares: de um atelier nos Lóios às festas clandestinas da Sound6team, um quartel transformado em residência artística, multibancos mobilados num máximo de 2 minutos servindo de albergue aos viajantes da noite.
Os ânimos voltam a convergir com superior intensidade no dia 5 do 5 do 2005, com a inauguração do 555 – espaço de intervenção, cantina vegetariana, sala de ensaios, bar, barco pirata, pagode chinês - e eis senão quando (surpresa?) esta história, já perdida entre Londres, Granada, Barcelona, Usseira, Berlim… se volta a desintegrar, a fundir na mais pura substancia primordial, e de novo a desmultiplicar: as produções sonoras da Freima, a revista Um Café, os eventos d’Um Taxi Amarelo, a euforia do Club447, o Hotel 555, as colagens da Fita-Cola, as noites loucas dos City Ravers… o BIXO MAU, nas Caldas da Rainha.
Esta história não é minha, nem tua, nem nossa, nem de ninguém em especial: ela é a história inacabada de uma irreverente vontade de fazer e de mudar, que se conta - isso sim - através de nós e da nossa vontade de aprender e de descobrir. No fim do mês de Janeiro, com o encerramento deste querido BIXO que tantas alegrias nos proporcionou e em verdadeiros trabalhos nos meteu, a história completa mais um ciclo, mais uma volta numa espiral que nos leva sabe-se lá onde, mas que – isso sabemos com certeza – não há-de parar por aqui.
Real art is play, & play is one of the most immediate of all experiences. Those who have cultivated the pleasure of play cannot be expected to give it up (...) Art will go on, in somewhat the same sense that breathing, eating, or fucking will go on. - Hakim Bey